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Sábado, 11 de Agosto de 2012

“Aprender segundo necessidades e potencialidades” - Diferenciação Pedagógica

Questão problema: A heterogeneidade que carateriza os grupos sociais e humanos é um problema da escola?

Efetivamente, a heterogeneidade não é um problema mas sim uma realidade. E não sendo um problema da escola, o problema invocado para os professores, quando estes querem trabalhar com grupos heterogéneos, é a gestão da heterogeneidade. Ou seja, como é que é possível chegar a cada aluno em particular tendo em conta que todos são diferentes e que não têm todos os mesmos conhecimentos, os mesmos interesses, a mesma relação com o saber e os mesmos mecanismos de aprendizagem?

Desengane-se quem pensar que para realizar diferenciação pedagógica há uma receita ou uma resposta concreta.

Cocemos por definir diferenciar. Diferenciar é pois “romper com a pedagogia magistral – a mesma lição e os mesmos exercícios para todos e ao mesmo tempo – é sobretudo uma maneira de por em prática uma organização do trabalho que integre diferentes dispositivos didáticos, de forma a colocar cada aluno perante a situação mais favorável” (Perrenoud, 1997).

Por outras palavras, diferenciar é romper com o ensino simultâneo encarecido nos modelos transmissivos, isto é, romper com uma pedagogia assente no mestre: o professor que transmite aos alunos informações, da mesma maneira e ao mesmo tempo. Assim, diferenciar é gerir o grupo classe de modo a colocar cada aluno na situação mais favorável de aprendizagem. Porém, é importante perceber que diferenciar pedagogicamente não é a mesma coisa que promover o ensino individual, para isso, por exemplo, “numa turma de 25 alunos com 25 horas de trabalho por semana, cada aluno teria direito a uma hora de apoio individualizado por semana” (Perrenoud, 1997)). O que, de certa forma, é impossível se queremos promover aprendizagens significativas.

De facto, é importante diferenciar pedagogicamente, uma vez que os todos alunos são diferentes em termos individuais, socioculturais, afetivo-emocionais e cognitivos. Com estímulos e ritmos de aprendizagem diferentes. E quer nos normativos que regulam a educação pré-escolar, quer nos que regulam a educação escolar existem referências claras a esta necessidade de diferenciar pedagogicamente. Assim segundo…

… a Lei de bases do Sistema Educativo: é objetivo do ensino básico “assegurar uma formação geral comum a todos os portugueses que lhes garanta a descoberta e o desenvolvimento dos seus interesses e aptidões, capacidade de raciocínio, memória e espírito crítico, criatividade, sentido moral e sensibilidade estética, promovendo a realização individual em harmonia com os valores da solidariedade social”, ou seja, assegurar uma formação global e equilibrada a todos.

Programa do 1º CEB: “distingue-se, de entre outros, o respeito pelas diferenças individuais e pelo ritmo de aprendizagem de cada aluno; a valorização das experiências escolares e não escolares anteriores; a consideração pelos interesses e necessidades individuais; o estímulo às interações e às trocas de experiências e saberes; o permitir aos alunos a escolha de atividades; a promoção da iniciativa individual e de participação nas responsabilidades da escola; a valorização das aquisições e das produções dos alunos; a criação, enfim, de um clima favorável à socialização e ao desenvolvimento moral”.

Orientações Curriculares para o Pré-Escolar: deve-se “proceder à despistagem de inadaptações, deficiências ou precocidades e promover a melhor orientação e encaminhamento da criança”.

Decreto de Lei n.º 6/2001: para assegurar o cumprimento da escolaridade obrigatória e combater a exclusão, “as escolas dispõem de dispositivos de organização e gestão do currículo, destinados especialmente a alunos que revelem insucesso escolar repetido ou problemas de integração na comunidade educativa, os quais, para além da formação escolar, podem conferir um certificado de qualificação profissional”.

Em suma, as questões ligadas à diferenciação pedagógica não são um assunto recente que decorre de uma teoria ou de uma corrente de pensamento, mas sim de uma necessidade efetiva, que os próprios normativos consagram. O que significa que realizar ou não realizar a diferenciação pedagógica depende da interpretação que os professores fazem do currículo oficial e dos normativos.

Em termos históricos, a diferenciação pedagógica “ficou” marcada por dois grandes acontecimentos. Em 1990 com o acordo de Jomtien e em 1994 com a declaração de Salamanca.

Fundamentalmente, estes dois acordos dizem que as crianças diferentes, sobretudo as crianças com necessidades educativas especiais, devem estar integradas no ensino regular - promoção da escola inclusiva.

Daí, Cronbch (19967 citado em Niza, 2000) estabeleceu cinco grandes métodos de organização das respostas educativas: o “método seletivo”, o “método temporal”, o “método da neutralização”, o “método dos objetivos” e o “método da adaptação do ensino”.

O método seletivo é aquele que hierarquiza e organiza os alunos segundo grupos de nível, ou seja, existe “o grupo dos bons”, “o grupo dos médios” e o “grupo dos atrasados”.

Efetivamente, quando falamos em grupos de níveis estamos a diferenciar pedagogicamente, porém a diferenciar para a homogeneidade. “Tratar os grupos como um só”.

O método temporal reconhece que todas as crianças são diferentes e que todas têm ritmos de desenvolvimento/aprendizagem diferentes. Sendo que o objetivo é comum para todos e portanto, compensa-se com mais tempo para chegar aos objetivos.

Por isso, para os alunos que não conseguem aprender ao mesmo tempo que os outros existem medidas compensatórias, como por exemplo o estudo acompanhado – “mais tempo para aprender”.

O método da neutralização reconhece que muitas das dificuldades dos alunos são provocadas por fatores de origem social, por isso, deverão ser compensados na escola, “tornando essas dificuldades neutras”.

O método da adaptação dos objetivos defende que é necessário fazer adaptações curriculares em função das características dos alunos e das suas supostas necessidades, ou seja, hierarquizar as saídas escolares, estabelecendo currículos alternativos.

Por último, o método da adaptação do ensino considera que só um método ensino não pode satisfazer as necessidades de todos os alunos. Assim sendo, o ensino do professor deve adequar-se às necessidades de aprendizagem de cada aluno, ou seja, “um ensino adequado com utilização conjunta de várias estratégias que se ajustem à diversidade dos alunos” (Niza, 2000). De todos os métodos referidos anteriormente, este é aquele que possibilita verdadeiramente a diferenciação pedagógica,

Perante isto, que condições são necessárias para a diferenciação pedagógica?

Da parte do professor, este deve ser capaz de aceitar e reconhecer as diferenças individuais e sociais dos alunos, bem como a sua heterogeneidade e aceitar que estes não aprendem sozinhos. Assim, o “cenário pedagógico” deverá ter uma organização cooperada, ou seja uma “organização do material pedagógico em áreas de trabalho, de maneira a que tudo o que se relaciona com cada uma das áreas esteja ao alcance de todos num determinado espaço, devidamente identificado” (Santana, 2000).

Além disto, para haver organização cooperada do trabalho tem de haver uma boa gestão do tempo, que contemple: tempo para o professor trabalhar com o grande grupo; tempo para o professor trabalhar com pequenos grupos e tempo para o professor trabalhar individualmente com alguns alunos. Por sua vez os alunos têm de ter tempo para trabalho nos projetos; tempo de trabalho para as comunicações sobre o projetos; tempo para trabalho autónomo e tempo para treino. Assim, é nesta gestão do tempo, extremamente difícil, mas útil e gratificante para alunos e professores, que se procura realizar a diferenciação pedagógica.

 

Em suma, a diferenciação pedagógica é essencial para que todos aprendam segundo as suas necessidades e potencialidades, seguindo os seus ritmos próprios, contribuindo para uma maior autonomia e cooperação. Pessoalmente, consigo aderir perfeitamente a esta teoria e gostava, um dia, de a por em pratica na sua perfeição.

publicado por pedro às 20:58

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